domingo, maio 02, 2010

Comissão das Lágrimas


Comissão das Lágrimas é o título provisório do romance que António Lobo Antunes começou a escrever há semanas e que tem como personagem Virinha, que foi dirigente do destacamento feminino das FAPLA (antigas Forças Armadas Angolanas) na parte final da Guerra Colonial.

Numa entrevista que deu ao caderno Sabático, do jornal brasileiro O Estado de São Paulo, porque está a ser lançado no Brasil O Arquipélago da Insónia, Lobo Antunes explicou que “um doloroso canto de uma mulher torturada” habita o seu pensamento. “É a voz de Elvira, conhecida como Virinha, que foi presa em Angola em 1977, quando o país, recém-independente de Portugal, enfrentava problemas internos”, disse o escritor ao jornalista Ubiratan Brasil.

Elvira, que esteve à frente do batalhão feminino do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), foi uma das 80 mil pessoas mortas sob suspeita de contestar Agostinho Neto. Lobo Antunes conta na entrevista que os pulsos de Elvira foram amarrados com arame e os tornozelos atados nas costas, que a levantaram a uma altura de dois metros e a soltaram repentinamente tendo o seu corpo batido no chão: “Mas, mesmo torturada, Elvira não parou de cantar, só quando morreu.”

Quando o jornalista lhe pergunta “se foi essa Comissão das Lágrimas, espécie de tribunal que apenas determinava a forma da pena, a decidir o futuro de Elvira”, Lobo Antunes confirma que sim e diz: “É um nome espantoso, carregado de poesia para determinar algo tão cruel. Isso faz-me lembrar o povo da Roménia que, antes da queda do comunismo em 1989, perguntava se haveria vida antes da morte.”
Sobre este assunto, Lobo Antunes diz não ter feito pesquisa quase nenhuma porque seria “esmagado pela documentação”. E acrescenta: “Nesse caso, o melhor seria fazer um livro-reportagem. Prefiro confiar na minha sensibilidade. Mas não sei ainda se terei um livro, pois vivo agora o momento mais terrível, aquele das falsas partidas: um caminho aponta, mas não é esse. Surge outro, também não
é. Portanto, é um trabalho para, no mínimo, dois anos, que pode resultar em nada.”
O próximo romance de António Lobo Antunes já está escrito. Chama- se Sôbolos Rios que vão e sairá na Dom Quixote em Outubro.

(Publicado no caderno P2 do Jornal PÚBLICO de 1 de Maio de 2010)

Retirado do blogue de Isabel Coutinho

quarta-feira, abril 28, 2010

O coração, se pudesse pensar, pararia.

in Bernardo Soares, Livro do Desassossego

quinta-feira, abril 15, 2010

Crying

Já há algum tempo que não pegava nos lápis e no papel... Mas hoje apeteceu-me...

Desenho a carvão
14/04/2010

segunda-feira, abril 05, 2010

Boy A




Aqui está um filme que me deixou totalmente arrebatada.

Aborda temáticas actuais com o bullying, a influência dos pares e da família no crescimento. E sobretudo a relutância da sociedade em dar uma segunda oportunidade a quem quer mudar de rumo…

Fez-me pensar. Até porque egoisticamente dou por mim a julgar determinados comportamentos e a condenar o que desconheço. Este filme mostra o “outro lado”, o lado do criminoso, que por vezes só o é porque também ele foi vítima.

Mas a sociedade teima em estigmatizar e asfixiar uma pessoa apenas pelo seu passado, não importa os laços que rompe, as vidas que destrói, as ruínas que deixa...

E eu também sou a Sociedade…

E depois, se bem que de uma forma mais subtil, assistimos à relegação da família para segundo plano, em prol de uma dedicação extrema ao trabalho.

Não é isto o MUNDO actual?

Uma palavra? Adorei.. Sobretudo porque provocou em mim uma miscelânea de sentimentos que só um filme MUITO BOM consegue provocar.


Uma nota: Interpretação brilhante de Andrew Garfield


IMDB

sábado, março 27, 2010

Almas Vazias

Passos perdidos percorrem o trilho da vida
Silêncios obscuros ecoam
Almas vazias que se cruzam
Sorrisos que camuflam a solidão

Nada do que parece, é
Nada do que é, parece ser

O céu é um espaço negro
O sol é um fotão sem energia
As pessoas são manipuladas como marionetas
O chão não tem terra para pisar

Somos o que querem que sejamos
Não sentimos...
Não amamos...

Lunatic Soul - Adrift


I know we’re passing by
See the shadows of our own
Apart from where we are
We still believe
And raise our hopes
We’re locked up alone
Going nowhere
Waiting for the dawn
And just like shooting stars
We sleep in flames
Until we burn up
Until we burn up

How many lives we live
Poised between all heaven and earth
How many times we die
Trying for rebirth with a different mask
No matter where we go
Souls adrift never say goodbye

quarta-feira, março 24, 2010

Nada

Pela sobriedade dos dias
Que tristemente percebo inócuos
Solto o desespero amargo
Da triste percepção inglória

Bato-me por tudo, sem ter nada
Recebo o vazio que me abraça
E desisto...
Desisto, sem desistir pois continuo...
A receber o nada
e
A dar tudo, sem ter nada

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Hoje deu-me para isto...

Hoje deu-me para vaguear pelo meu blog... Ler os meus devaneios, criticas literários e cinematográficas, ver os meus desenhos, as minhas "tentativas de pinturas", algumas fotografias que tirei...
Já lá vão 5 anos e estão aqui representadas algumas fases da minha vida... As alturas boas, mas sobretudo menos boas (já que são estas que são as inspiradoras)...

E agora está instalada a nostalgia e a culpa é também dos Vossos comentários... ;)

quinta-feira, outubro 22, 2009

António Lobo Antunes - Grande Entrevista

Para quem não viu, aqui fica a "Grande Entrevista" com António Lobo Antunes.

Quem me conhece sabe que tenho uma profunda admiração por este escritor.
Para além de adorar os livros que escreve, gosto imenso de ver as entrevistas que dá, gosto de saborear as analogias, as metáforas, as ideias e a clareza com que as exprime, sempre preservando a "virgindade do olhar"...

Arrisco-me a dizer que é a pessoa mais PERFEITA, que conheço, sem conhecer...

http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?tvprog=1436&idpod=31010&formato=flv

quinta-feira, agosto 06, 2009

quarta-feira, abril 22, 2009

Clara Ferreira Alves

Na semana passada recebi um e-mail com um artigo de Clara Ferreira Alves, publicado na revista Única do Jornal Expresso.
E devo dizer que subscrevo integralmente tudo o que ali está escrito, o que me surpreende dado que nunca fui muito com a cara da dita Sra... ;)

Mas vale MESMO a pena ler... Aqui fica:

"Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.

Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.

Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido.

Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.


Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos. A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo normal" e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada. Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.


Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

Vale e Azevedo pagou por todos?
Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?
Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?
As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.

E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?
Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?

O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.

Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.

Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças , de protecções e lavagens, de corporações e famílias , de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa."

Clara Ferreira Alves - "Expresso"

segunda-feira, março 09, 2009

Twitter



Conheci o Twitter através de um programa da Prova Oral, cujo convidado era o Daniel Catalão (jornalista da RTP), acérrimo defensor do Twitter.
E com tantos elogios, não resisti e tentei descobrir o que era este programa. E agora também eu estou rendida...

Por isso convido-vos a passar por lá e conhecer melhor as suas funções: http://twitter.com/

Eu estou aqui: http://twitter.com/SynneSoprana

Até já!... ;)

segunda-feira, janeiro 12, 2009

O Arquipélago da Insónia

Acabei de ler o último livro de António Lobo Antunes... Devo dizer que só veio reforçar a minha ideia (leia-se certeza) de que ele é o MELHOR ESCRITOR PORTUGUÊS...

E como me é difícil falar sobre as coisas/pessoas de que mais gosto, deixo aqui uma critica literária deste mesmo livro de Tim James Booth, que expressa admiravelmente aquilo que eu penso deste escritor e deste livro...



«- Somos dois homens rapaz
a cerrar a tampa sobre mim e a afastar-se nas ervas para eu não acordar.»
António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia


Ao pousar o livro sobre a secretária ainda tremo quando me lembro que este exemplar em particular me foi entregue em mãos pelo autor, assinado e dedicado, no primeira (talvez única) oportunidade que tive para o conhecer. Ainda me ressoam nos ouvidos as palavras curtas e, apesar disso, tão longas que trocamos, o sorriso inesperado, o elogio sussurrado, a minha voz a tremer, as minhas mãos a tremer, o livro a tremer quando lho estendi, o livro seguro quando me devolveu, uns poucos minutos que vão ficar para sempre na minha memória e umas palavras que vão para sempre ficar escritas no meu livro, pela mão do génio Lobo Antunes, quem sabe próximo Nobel da Literatura português, já que é eterno candidato. E um conselho, um conselho que guardarei para sempre na sua voz sumida e pensada, “Nunca empreste livros”, nunca os empresto caro doutor.

Isto para dizer que ler este livro não estava no meu plano de leitura, como disse anteriormente, primeiro queria aprofundar o início de carreira de Lobo Antunes, no entanto este Arquipélago pediu independência da minha jurisdição e em boa hora o fez. Não sou, certamente, o homem indicado para comentar a obra deste senhor se nem sequer um quarto daquilo que escreveu, e estou a falar apenas da ficção, fui ainda capaz de ler, por essa razão evitarei comparações, ainda que inevitáveis, com as obras que antecederam este romance. Podia bem começar por aí, contestar a eterna designação de romance que nada quer dizer e que dificilmente encaixa neste livro, mas que encaixa porque o livro não entra em mais lado nenhum. Mas fujo ao que interessa.

O Arquipélago da Insónia é a mais recente obra de António Lobo Antunes. É uma visão plural da história de três gerações de uma família disfuncional (como tantas nas histórias de Lobo Antunes) dona de uma herdade algures no Ribatejo, desde o seu crescimento pelo braço do Avô e do seu amigo de infância que se tornou no feitor, até ao declínio e à inexistência com que chegou aos seus netos. Disfuncional não chega para descrever esta família, se existe um avô com um filho que não respeita, “Idiota”, um filho casado com uma ex-empregada da casa que era tomada pelo pai, como todas as outras, um neto que é autista e filho do ajudante de feitor, outro que simplesmente não quer ser, uma avó que tremia tanto como a chávena no pires e matava coelhos com uma paulada no cachaço, uma mulher que morreu em criança e a própria morte como prima da família. É isto o livro e nada mais, a história de uma família sem história, igual a tantas outras e diferente de todas, singular porque nasceu de uma mente singular e banal porque vemos em todos os membros do clã facetas nossas. Aparentemente Lobo Antunes aproxima-se cada vez mais do seu objectivo de encher os livros de nada, este é um livro carregado dele, de palavras que não existem, e que não precisam de existir para serem lidas, de história que não existe, e não precisa para ser conhecida, de morte que existe, e não precisava de existir para lá estar.

Durante dois terços do livro vemos a família pelo olhar do autista. E está brilhantemente bem composto. Ninguém sabe como funciona a mente de alguém assim, mas António Lobo Antunes não estará muito longe de um pensamento verdadeiro. Uma alucinante sucessão de tempos e datas e factos e histórias e imaginação e palavras soltas e tudo o mais o que pode passar por uma mente diferente. Talvez uma das mais intensas partes do livro será o último capítulo da parte II, em que o personagem se revela demasiado frágil para contar exactamente o que se passa, recorrendo inúmeras vezes a factos sobre cegonhas para se acalmar, entrecortando o discurso narrativo (como tantas vezes acontece ao longo do texto) com factos inúteis sobre as aves, até que atinge o clímax final, que não é mais do que um ponto temporário que se vai repetir ao longo de toda a terceira parte por diversas vezes vistas por diversas pessoas.

Por este olhar vemos nós grande parte da saga familiar e durante todo esse tempo o leitor não pode deixar de se sentir ligeiramente perdido, sem saber muito bem o que está a acontecer, e ao mesmo tempo, maravilhado. Mas claro, sendo Lobo Antunes, não podia ser uma só visão a contar-nos a história e no terço final sucedem-se os relatos diferentes das diferentes pessoas, e tudo, subitamente, começa a ficar tão claro e tão repentinamente claro que ficamos embasbacados com o génio do senhor que parecia escrever frases quase desconexas em tudo.

Como já noutros livros do autor acontecia, o título, para mim, só faz sentido no fim. Mesmo nunca usando as palavras “arquipélago” ou “insónia” durante o texto, não é difícil chegar à conclusão de que todos são ilhas que vagueiam solitárias, presas na localização e no sangue, mas solitárias e acordadas pela noite, e pela morte, dentro. Lobo Antunes faz-nos um espelho feito de retratos, os retratos que estavam na sala da casa onde o autista via os parentes que rapidamente se transformavam em pessoas ao seu lado, um espelho onde vemos o nosso contínuo desejo de permanecer acordados. Eternamente acordados, perhaps?

Chego ao final desta recensão com um sentimento de incapacidade indescritível. Queria dizer tanto mais sobre este livro e nada mais me sai. Sinto-me pequeno, muito pequeno, perante um dos maiores nomes da literatura mundial e um dos maiores mestres da palavra portuguesa. Tal como me senti quando lhe apertei a mão há uma semana e pouco. Tal como me vou sentir sempre que tentar falar sobre ele ou a sua obra, ou sobre ambos, sendo ambos um, porque se confundem Lobo Antunes e os livros que escreveu, talvez mais do que o próprio autor desejaria.

É, sem dúvida, um livro inquieto de uma mente genial. Poderia escrever pela noite dentro e mesmo assim não seria capaz de reproduzir aquilo que o livro me disse sem, de facto, dizer nada. A verdade é que para um homem encher um livro de silêncio é muito fácil. O difícil é enchê-lo de silêncio cheio de palavras. Isso, António Lobo Antunes consegue-o magistralmente.


por Tim James Booth
05.11.2008

in http://www.ala.nletras.com

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Sinto Muito - Nuno Lobo Antunes






Palavras para quê.............

............. vale a pena ler!!!

segunda-feira, novembro 17, 2008

Tiago Bettencourt & Mantha - O Lugar



Já é noite, o frio está em tudo o que se vê
lá fora ninguém sabe que por dentro há vazio
porque em todos há um espaço que por medo não se deu
onde a ilusão se esquece do que o medo não previu
já é noite o chão é mais terra pra nascer
a água vem escorrendo entre as mãos a percorrer
todo o espaço entre a sombra entre o espaço que restou
para refazer na vida no que o medo não matou

Mas onde tudo morre tudo pode renascer
em ti vejo o tempo que passou
vejo o sangue que correu
vejo a força que me deu quando tudo parou em ti
a tempestade que não há em ti
arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar

Já é dia e a sombra está em tudo o que se vê
lá fora ninguém sabe o que a luz pode fazer
porque a noite foi tão fria que não soube acordar
a noite foi tão dura e difícil de sarar

Mas onde tudo morre tudo pode renascer
em ti vejo o tempo que passou
vejo o sangue que correu
vejo a força que me deu quando tudo parou em ti
a tempestade que não há em ti
arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar

Mas eu descobri a casa onde posso adormecer
eu já desvendei o mundo e o tempo de perder
aqui tudo é mais forte e há mais cores no céu maior
aqui tudo é tão novo e o que pode ser amor

E onde tudo morre tudo volta a nascer
em ti vejo o tempo que passou
vejo o sangue que correu
vejo a força que me deu quando tudo parou em ti
a tempestade que não há em ti
arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar

Já é dia e a luz está em tudo o que se vê
cá dentro não se ouve o que lá fora faz chover
na cidade que há em ti encontrei o meu lugar
e é em ti que vou ficar.


Sem dúvida, a melhor música deste álbum “Jardim”. Musicalmente absorvente, chegando a ser arrepiante na entrada dos violinos.

A letra não fica atrás, repleta de metáforas, que nos fazem acreditar que apesar da “noite” e da “sombra” que preenchem as nossas vidas, haveremos de encontrar o “dia” e a “luz”.

“E onde tudo morre tudo pode renascer”

quinta-feira, julho 24, 2008

Uma Iniciativa DN


Vem aí mais um conjunto de livros de bolso. Tratam-se de 30 clássicos da literatura internacional, que contam com nomes como Kafka, H. P. Lovercraft, Edgar Allan Poe, entre outros.
A não perder!


Aqui estão os 30 livros contemplados nesta iniciativa e as respectivas datas em que vão sair:

Fiódor Dostoiévski
Coração Débil
26 - Jul

Franz Kafka
A Metamorfose
27 - Jul

Giovanni Boccaccio
Histórias Eróticas
28 - Jul

Anton Tchekov
A Minha Mulher
30 - Jul

Voltaire
O Ingénuo
01 - Ago

Lev Tolstoi
A Morte de Ivan Ilitch
02 - Ago

Jack Londo
A Peste Escarlate
03 - Ago

Maximo Gorki
Três Contos
04 - Ago

Thomas Hardy
O Pregador Atormentado
06 - Ago

Franz Kafka
Carta ao Pai
08 - Ago

Fiódor Dostoiévski
A Voz Subterrânea
09 - Ago

Joseph Conrad
Juventude
10 - Ago

H.P. Lovecraft
Herbert West: Reanimador
11 - Ago

Robert L. Stevenson
O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde
13 - Ago

Charles Dickens
Um Cântico de Natal
15 - Ago

Henry David Thoreau
Onde Vivi e para Que Vivi
16 - Ago

Henry James
A Fera na Selva
17 - Ago

Miguel de Cervantes
A Ciganita
18 - Ago

Rainer Maria Rilke
Histórias do Bom Deus
20 - Ago

Nikolai Gógol
O Retrato
22 - Ago

Sun Tzu
A Arte da Guerra
23 - Ago

Stephen Crane
O Barco Aberto
24 - Ago

Oscar Wilde
O Crime de Lorde Artur Savile
25 - Ago

Thomas Wolfe
O Rapaz Perdido
27 - Ago

Gustave Flaubert
Um Coração Simples
29 - Ago

Edgar Allan Poe
A Queda da Casa de Usher
30 - Ago

Fiódor Dostoiévski
Contos
31 - Ago

Italo Svevo
Um Embuste Perfeito
01 - Set

Oscar Wilde
O Retrato do Sr. W.H.
03 - Set

Rainer Maria Rilke
Cartas a Um Jovem Poeta
05 - Set

sexta-feira, junho 20, 2008

Sorte

Após mais um período de ausência, como já vem sendo hábito, aqui estou eu, com um espírito renovado após 2 semanas de férias, onde entre outras, consegui fazer uma das coisas que me dá mais prazer: ler...
Li alguns livros, como não podia deixar de ser "O Escafandro e a Borboleta" fez parte desse leque e devo dizer que, não surpreendentemente, superou o filme, apesar de considerar que seria impossível fazer melhor, mas passar um livro para a tela há-de ser sempre uma tarefa ingrata.


Mas de entre os livros que li, destaco alguns que gostei especialmente:

Cemitério dos Pianos - José Luís Peixoto












As Horas Nuas - Lygia Fagundes Telles












A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias - Tim Burton












Sorte - Alice Sebold









Mas é sobre este último que vou escrever... Talvez porque pela sua carga dramática foi aquele que mais me comoveu, na verdadeira ascensão da palavra...
Há livros que nos agradam por diversos motivos, mas aqueles que geram sentimentos em nós, aqueles que nos aceleram os batimentos cardíacos, aqueles que nos fazem sentir medo, pânico, insegurança, esses sim, marcam! Ainda mais quando temos noção do que o que estamos a ler não é ficção...

Tudo começa da forma mais crua. Invulgarmente, ficamos presos logo a partir das primeiras linhas. De repente esquecemos que estamos a ler, entramos directamente no cenário construído com pormenores e detalhes aterradores, capazes de nos fazer gelar. Sentimos medo, dor, repugnância... Nas páginas que se seguem confrontamo-nos com as sequelas físicas, mas sobretudo emocionais da autora, vítima de violação, bem como das pessoas que com ela convivem...
Esta história contada na primeira pessoa é sem dúvida um relato impressionante de alguém que teve a força e coragem de assumir e relatar a sua história, que sempre lutou pela justiça e que em tantas vezes fingiu estar bem, mesmo sabendo que ficaria marcada para sempre...

Queria deixar um enxerto deste livro aqui, mas como achei que umas linhas seriam sempre nada, optei por deixar apenas um poema que Alice escreveu para uma aula (p.139):

Se te apanhassem
o tempo suficiente
para eu ver novamente essa cara
talvez conhecesse o teu nome.

Podia deixar de chamar-te "o violador"
e começar a chamar-te John ou Luke ou Paul.
Quero deixar crescer o meu ódio.

Se te apanhassem, podia pegar
nesses tomates encarnados e compactos

e separá-los, com toda a gente a ver.
Já tenho um plano do que faria
para uma morte agradável, para um demorado e gentil fim.


Primeiro,
dava-te acertados e forte pontapés com uma bota,
ficava a observar-te enquanto te torcesses e te escorresse
um fio de sangue escarlate.
A seguir,
cortava a tua língua,

já não podias praguejar ou gritar.
Apenas um rosto de dor a falar,
a mostrar a tua grande perplexidade.
Terceiro,

arrancava aqueles doces
olhos boi com os vidros em que me obrigaste

a deitar? Ou devia disparar, com uma arma,
mesmo para dentro do joelho; onde dizem que

a rótula se esmigalha imediatamente?

Vejo-te agora,
os teus dedos a tirar o sono
desses olhos cegos para a vida, enquanto eu não consigo

descansar. Preciso do sangue da tua pele
nas minhas mãos. Quero matar-te
com botas e armas e vidro.

Quero foder-te com facas.

Vem ter comigo, vem,
Vem morrer e deitar-te ao meu lado.

E porque quando gosto realmente de um livro, "vasculho" a obra desse autor, acabei por descobrir que o segundo livro desta autora, de nome "Lovely Bones"(em Portugal "Visto do Céu") vai ser adaptado ao cinema pelo Peter Jackson e tem data prevista de lançamento para Outubro de 2009, o que dá tempo para comprar o livro e o ler! ;)

terça-feira, abril 22, 2008

Le Scaphandre et le Papillon



Este filme retrata a história do famoso editor da revista “Elle” e da mudança radical da sua vida, após sofrer um Acidente Vascular Cerebral que lhe paralisou (quase) todas as suas funções motoras. Síndrome “locked-in” é nome dado pela medicina a esta forma gravíssima e rara de Acidente Vascular Cerebral, com atingimento do tronco cerebral.
Fechado no interior de si próprio, ouve tudo o que o rodeia, percebe tudo o que se passa, está apenas fechado no interior de si mesmo, encerrado no seu próprio corpo: “Locket-in”
O movimento do olho esquerdo é a única função motora que preservou e é através deste que Jean-Dominique Bauby vai poder comunicar com o exterior e exteriorizar as suas angústias, pensamentos e desejos. E é através desta forma de comunicação que Bauby escreve o livro “O Escafandro e a Borboleta”, escolhendo cada letra, formando palavras, frases, páginas inteiras…
Este filme é magnífico, e transpões-nos para uma realidade dura, que na maioria das vezes nem consideramos: a volatilidade da nossa existência. Baseado num caso verídico, este filme conquistou um prémio no festival de Cannes 2007, o de melhor realizador. De facto, Julian Schnabel faz-nos colocar muitas vezes na posição de Bauby, mostrando-nos a perspectiva da sua visão e dos seus pensamento. Aquilo que o seu olho consegue alcançar e até onde a sua mente pode divagar são a maioria das imagens que conseguimos ver ao longo deste filme. Sem qualquer dúvida um filme para rever, como todos os outros da minha lista de preferidos.

O livro “O Escafandro e a Borboleta” já se encontra na minha lista de compras, para a próxima ida à Fnac. ;)

sexta-feira, abril 04, 2008

sábado, fevereiro 16, 2008

Placebo - Where Is My Mind?



With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it
Your head will collapse
But theres nothing in it
And youll ask yourself

Where is my mind

Way out in the water
See it swimmin?

I was swimmin in the carribean
Animals were hiding behind the rock
Except the little fish
But they told me, he swears
Tryin to talk to me koi koy

Where is my mind

Way out in the water
See it swimmin?

With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it
Your head will collapse
If theres nothing in it
And youll ask yourself

Where is my mind

With your feet in the air and your head on the ground

Try this trick and spin it